Uma rua movimentada, ratazanas do tamanho de um pitbull, lixo saindo de qualquer buraco, vômitos de ressaca e um Papai Noel de moicano vendendo doces em Dezembro. É a Vila do absurdo outra vez.
"Ajudem as criancinhas do orfanato, elas estão doentes e famintas", e toca o sino pequenino de Belém.
Um garoto se aproxima para comprar doces, compra duas barras de chocolate.
"Deus te abençoe", diz o Papai Noel.
"Prefiro Buda", responde o garoto, e o Sol seguiu rasgando o céu lentamente até tocar a tênue linha do horizonte.
Mais um doce é vendido.
"Buda te abençoe", diz o Papai Noel.
"Prefiro Sheeva", alguém responde.
O dia termina, as ratazanas foram dormir, os vômitos secaram, o lixo continua no mesmo lugar e o Papai Noel de moicano confere o dinheiro da venda dos doces, "Oba", ele grita, "já tenho o suficiente", e ele sai perambulando pela rua, dobrando esquinas escuras e pegando atalhos perigosos cheio de prostututas gordas loucas por sêmen. O Papai Noel entra num bar.
"Conseguiu o dinheiro?", pergunta o dono do bar.
"Com juros e correção monetária, o povo fica mais solidário nessa época do ano", responde o Papai Noel.
"Tudo não passa de culpa disfarçada de filantropia! Mas é melhor pra você, toma o açucar de suas criancinhas", era heroína, a mais viciante das drogas.
Em dois segundos ele já está no seu apartamento, uma pocilga, e a seringa aguardando-o pacientemente. Papai Noel não tem pressa, ele curte o prazer de preparar sua droga lentamente para alimentar a ansiedade do vício. Silêncio.
O silêncio é interrompido pelos gemidos no apartamento vizinho, Papai Noel ignora, os gemidos aumentam, Papai Noel fica nervoso, os gemidos viram gritos de horror, a ansiedade do Papai Noel em dar um baque é substituído pela irritação, mais gritos, Papai Noel vai até o apartamento vizinho ver o que está acontecendo.
Um moribundo abre a porta, borboletas negras teriam escapados pela fresta recém-aberta, um junkie em total estado de abstinência respira seus últimos goles de oxigênio. Papai Noel olha espantado.
"O que você tem, meu jovem?"
"Abstinência. Não consegui roubar nem matar para conseguir heroína, estou muito fraco", a voz sai mais fraca ainda, quase inaudível.
Papai Noel sente muita pena, suas mãos suam desejando uma dose, mas um sentimento esquecido há muito tempo começa florescer.
O bom junkie capota numa tremedeira sucúbica, Papai Noel olha para a seringa no seu bolso, dez segundos para decidir entre seus gozos psicodélicos ou a sobrevivência de um puto desconhecido.
Silêncio, muito silêncio, mais alguns segundos de silêncio, o junkie olha para o céu revigorado, o mijo narcótico esquenta suas veias, ele olha para o Papai Noel.
"Obrigado."
Papai Noel volta para seu apartamento, deita na cama, suas mãos começam a tremer, suas pernas começam a tremer, seu corpo começa a tremer, o suor gelado umedece o lençol sujo, os olhos fitam o teto amarelado.
"Feliz Natal, meu jovem, feliz Natal".
É o espírito natalino na Vila do Absurdo, mais uma vez.

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