quinta-feira, 24 de julho de 2008

POLLIANA

Deitada sobre a cama com grossos cobertores perfumados em seu apartamento perfeitamente asseado pela mania irritante de limpeza doentia, Polliana, uma linda jovem estudante de filosofia, está totalmente nua com seus pêlos loiros eriçados pelo frio de uma noite invernal de Julho, os seus belos olhos azuis não demonstram nenhuma vida na opacidade obscura de um eterno transe psicotrópico, a heroína corrói as veias macilentas da jovem amante de Nietsche mais uma vez. Morando sozinha no oitavo andar de um prédio pardacento no centro de cidade, a garota jamais conseguiu se relacionar socialmente com as outras pessoas, preferia manter-se isolada da estupidez da vida mundana. E sua barreira contra o estúpido vício social, era justamente o prazer vicioso das drogas ilícitas.

Os quadros do quarto escuro distorceram-se diante dos olhos inanimados de Polliana, um macaco urbano acariciou-lhe a fronte suada com seu cacho de bananas alimentando a ambos, e num relampejo atordoante, todos os móveis do quarto se transformaram em animais de zoológico. Chipanzés da bunda vermelha, leões famintos por sexo incestuoso, ursos marrons se cagando diante da monstruosidade do elefante africano e pássaros enormes, coloridos até a última pena holográfica, cantavam na beleza de seu particular zoológico alucinógeno. Polliana era a rainha dos animais selvagens.

Silêncio. Escuridão negra. Murmúrio de sexo no andar de baixo. Silêncio. Todo o material de um viciado experiente na cama: seringa, colher, isqueiro, soro fisiológico, elástico. Silêncio. A seringa penetra-lhe o corpo encontrando uma veia quente. Choro reprimido, baixinho. Silêncio. Um vulto escuro se esconde no campo de visão de Polliana, observando-a furtivamente. O vulto salta na direção dela. Choro forte, o silêncio é quebrado pelo barulho salvador do telefone.
“Alô!”
“Oi, filha, tudo bem?”
Polliana suspira aliviada, a heroína corroendo suas veias quentes, “Mãe?”.
“Eu mesma... Está tudo bem aí?”
“Sim, mãe. Tudo ótimo!”, Polliana mente descaradamente, os prazeres da droga estão agasalhando-a carinhosamente.

Mas mãe que é mãe percebe quando um filho não está legal, sente cheiro de morte e de tristeza quando algo está errado, “Você está com uma voz estranha...”.
“Não é nada, mãe. Estou só cansada. Tenho dormido mal ultimamente.”
“Mas por quê?”
“Estresse, mãe, estresse. Tenho trabalhado e estudado muito.”
“Nesse caso acho melhor você descansar. Boa noite, Polly.”

Polliana segura o choro por alguns segundos, “Mãe...”, “Sim?”, agora Polliana está com a voz embargada, suas intenções futuras e sua tristeza solitária apertam e quase param seu coração amargo, “Fala pro pessoal aí que eu amo todos eles”.

A mãe de Polliana pressente o futuro desagradável reservado para a filha, e inconscientemente tenta salvar a amante de Nietsche de um destino horrível, “A gente também ama você, Polly. E muito!”, uma lágrima escorre da face rubra de Polliana, não demoraria muito até ela entrar em transe alucinógeno e não ver o espaço-tempo passar diante dos seus olhos, um viciado em heroína pode passar horas fitando uma aranha morta no teto sem sentir nenhum desconforto ou tédio.

“Beijos, mãe”
“Outro, minha linda”, mais uma nova tentativa inconsciente de salvar a filha, “Te amo, viu?”, mas Polliana não ouve as últimas palavras da mãe, o telefone já estava sendo desligado prematuramente.

Telefone desligado, ela volta a ficar sozinha naquele quarto escuro, com a respiração ofegante por causa da droga, ela encara a parede onde antes houvera um vulto encarando-a furtivamente. Sua respiração vai, aos poucos, voltando ao normal, sua cabeça descansa na parede dura, seus olhos se reviram mostrando a alvura maculada pelas veias inchadas de excitação, as pálpebras se fecham lentamente para entrar num sono perturbador. Silêncio. Murmúrios de sexo no andar de baixo.

O barulho dos carros irrompem o início de mais uma manhã entediante na vida de Polliana, ela acorda assustada, olha para a cama e encontra os objetos que usou para se drogar na noite anterior. Com gosto de ressaca na boca, ela recolhe tudo e joga numa caixinha que esconde debaixo da cama, olha à sua volta balbuciando um choro leve, abre a gaveta do criado-mudo e revista tudo o que têm dentro, respira aliviada levando as mãos para o rosto na inútil tentativa de recobrar a consciência. Olhos tristemente fechados. A velha imagem do vulto furtivo avança sobre ela. Sustos aliviados da consciência insana. Polliana respira fundo, levanta calmamente e caminha com languidez até o banheiro, onde toma um banho de água gelada e faz um pequeno curativo em seu braço roxeado.

Roupas pretas cobrem todo o seu corpo para esconder as marcas do vício crescente, a luz do sol incomoda sua visão, então ela usa uns óculos escuros complementando seu visual deprimente, Polliana sai de casa para trabalhar na loja de piercings e tatuagens, cabisbaixa e com o andar arrastado, não há pressa em sua vida, seu inseparável livro de Nietsche ficou em casa, esquecido. Silêncio. Pela rua movimentada - cheia de pessoas com suas vidinha vazias e entediantes, macacos trabalhadores do sistema capitalista, muitos sem culturas e aprisionados pelos incultos programas televisivos - Polliana se vê mais uma vez misturada com a estupidez da vida mundana. Saias curtas, patricinhas vagabundas, roupas de grife sem conteúdo, playboys de plantão, propagandas, deturpação da língua-mãe, pressa, desânimo, intenções ao sexo subliminar, egoísmo egocêntrico, ignorância subjetiva, burrice proposital, dinheiro querendo comprar felicidade, sociedade capitalista, mundo animal, homem-macaco.

Polliana está cansada trabalhando na loja, e sem o seu livro de Nietsche para passar o tempo, ela começa a sentir o sabor do tédio aguar sua boca, ansiando por uma dose satisfatória de heroína convalescente. Silêncio. Chega um cliente, um urubu atrás de carniça ou carne nova, indiferente, procura por um piercing para marcar o corpo gordo, o fedor de álcool exala de suas axilas suadas manchando a camiseta de grife, Polliana sente ânsia.

“Esses são os piercings que nós temos na loja”, Polliana segura o vômito novamente.
“Eu queria um para colocar na língua”
“Então esses aqui são mais indicados”
“Deixe eu ver...”, o fedor etílico se espalha por todo o ambiente, clientes em potencial não entram na loja por causa do playboy alcoolizado. Ânsia de vômito. “Eu vou querer pôr esse aqui”.
“Vamos pôr então”

Segurando o pouco ar puro que resta, Polliana leva o cliente para uma salinha reservada. O cliente abre a boca, dentes negros e podres como a morte, língua pra fora, a agulha descartável fura a nojenta carne do homem, ânsia de vômito, o piercing esterilizado é colocado, o cliente paga e vai embora, Polliana sai correndo. Vômito esverdeado escorre pela pia do banheiro.

Após um bom tempo um outro cliente chega, não compra nada, muitos entram e saem, alguns compram algo outros não, e assim segue o dia, assim segue a vida mundana e sem sentido, Polliana anseia para ir embora e acabar com tudo. Longe dali, em outra cidade, a mãe de Polliana pensa na filha. Os carros passam apressados, lançando quilogramas e mais quilogramas de poluição no ar, a vida segue sem mudar seu sentido. O incansável relógio insiste em andar cada vez mais lentamente com o passar das horas, não há pressa na vida de Polliana, apenas ansiedade, e quanto mais ansiosa ela fica mais lânguido o relógio insiste em ser. Ela quer acabar com tudo.

No fim do dia, Polliana volta para casa calmamente, ela não tem pressa, apenas ansiedade, seus óculos escuros estão guardados na pequena bolsa preta, o sol já transpôs a tênue linha do horizonte. Polliana apenas caminha e, mesmo morando perto do local de trabalho, ela vai para o terminal de ônibus, fica lá por um tempo, ela quer ver gente, algo estranho para quem tem repulsa social, observa o vazio apressado de cada um que passa ao seu lado, sorrisos falsos em rostos maçantes, apenas as crianças possuem sorrisos verdadeiros, elas ainda não conhecem o mundo, os pesadelos de abstinência começam a aparecer, as pessoas que passam ao seu lado transformam-se em manchas coloridas de preto e branco, o sorriso acolhedor das criancinhas ficam distantes, ela senta no chão com a cabeça baixa e os ônibus passando ao longe. Ela se recolhe à posição fetal. Chama pela mãe. Longe dali, em outra cidade, a mãe de Polliana pensa novamente na filha.

Mesmo inconsciente de seus atos, as pernas de Polliana a levam até sua casa, os viciados são como os gatos, eles sabem como chegar em casa ou no seu vendedor de drogas preferido mesmo que largados a esmo em alguma rua obscura desse mundinho fodido.

No quarto bagunçado e ainda meio inconsciente, Polliana senta na cama de frente para a parede onde um dia antes viu um vulto furtivo observando-a. Ela grita. Ela acorda de seus devaneios e percebe o estúpido mundo em que vive, mundo maçante, chato, viciado em ignorância, mundo de pessoas estúpidas, cruéis, um mundo cruel. Ela grita novamente, e em seu desabafo raivoso ela joga o livro de Nietsche contra a parede, joga o travesseiro também, joga tudo o que vê pela frente, seu quarto é destruído violentamente, raiva à flor da pele, ódio nas veias macilentas, lágrimas nos olhos tristes, nos tristes olhos azuis.Ela sai do quarto impetuosamente, volta em seguida com uma lata de tinta em spray, chorando ela escreve algo na parede, chorando ela se afasta da parede, chorando ela senta-se na cama. Silêncio. Polliana se levanta e vai até o criado-mudo, pega um revólver que ali estava há muito tempo e senta-se na cama novamente de frente para a parede onde acabara de escrever algo. Ela aponta o revólver para a própria boca e lê o que escreveu pela última vez, “Completamente sozinho é tudo o que todos somos”, o barulho de um tiro ecoa pelo quarto destruído. Silêncio. Murmúrios de sexo no andar de baixo.

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