quinta-feira, 31 de julho de 2008

CARTA PARA UM AMIGO

Tantos demônios que se apossaram da minha cabeça e você sempre do meu lado na qualidade de amigo miserável. Impediste-me de afogar este peso enfadonho em loucuras sugestivamente suicidas deixando meus olhos quase sempre vermelhos.
Certa vez eu fui encontrado debaixo de um viaduto. O suor escorrendo pelo meu rosto, o sangue desafiando a gravidade e o fedor de mijo perfumando narinas alheias. O tempo não significava mais coisa nenhuma, dias, horas e segundos de nada me valiam. Albert Einsten me ensinava a relatividade enquanto o mundo alienado continuava sendo mundo.
Misérias, desgraças, doenças, infâmia, dores, perturbações, loucuras, drogas, sexo, putas, infelicidade, demônios... - Eis o demônio! Ecce Homo! –
Você sempre esteve me acompanhando, mesmo distante, na sombra das árvores. Quando observei o mundo do alto, me seguraste com grande carinho.
Certa vez me encontraram desfalecido na rua, o coração despedaçado procurando cola, um amor tão bonito que não pude suportar. Os amigos consolaram, mas só você me fez rir.
Prostitutas nojentas me chuparam por drogas, cachorros coprófagos procuraram comida e os demônios da noite perturbaram meu sono. Gregório de Matos declamou seus sonetos e eu abaixei a cabeça para ouvir com respeito.

As guerras, as merdas, as guerras de merda. O mundo vazio e você nunca me deixou esquecer o que é ser humano. Ser feliz é humano, ser infeliz é humano, sentir dor também é humano, sorrir é humano, chorar é mais humano ainda. Estar no fundo do poço é humano, querer sair do fundo é condição humana, defecar é humano, sangrar e morrer é o destino humano.

Certa vez eu quis sair correndo sem nenhum objetivo ou destino miserável. Fugindo de um triste amor indesejado arrebentei minhas fibras musculares e uma câimbra sentimental me tomou no caminho. Você me carregou com esforço, nos arrastamos pelas vielas de pedregulhos enquanto as pedras perfuravam meu músculo sentimental. Uma delas me atravessou com frieza matando o último sentimento generoso dessa carcaça.

Guerra, guerras e guerras. A miséria assola meus ângulos de visão. O álcool embaça minha vista e me impede de ver a realidade, realidade que sempre desejei negar. Às vezes sonhando com as malditas flores, em outras, apenas sonhando acordado.

Certa vez me pediram para não te procurar, eu estava perdido sem saber onde ir, o sangue negro esquentava minhas veias e alimentava as vampiras de pesadelos reais. Tampei os ouvidos e fui atrás de você, mais uma vez encontrei o conforto nos seus braços, suas palavras sussurradas eram embriagantes e os demônios à nossa volta dançavam ciranda.

Uma garota de negro mordeu-me os lábios e bebeu do meu sangue o ópio da melancolia, para chorar de desespero na depressão entorpecente. Você devia ter visto suas lágrimas vermelhas quando tentei me enforcar na cela dessa prisão.

A guerra, as drogas, as dores, as loucuras, temperados com miséria e desgraça, tudo fez parte desse cardápio sombrio, para dizer a você, amigo miserável, que certa vez eu vi a porta do inferno aberta e a degradante visão apocalíptica que tive foi do próprio mundo maldito que nós vivemos.

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